A Descida do Monte Kilimanjaro – Tanzânia, África

Por Daniel Chu
Ficamos pouco mais de 1 hora no topo da África: o pico Uhuru no Monte Kilimanjaro, a 5895m de altitude,  no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quênia. Agora, escrevendo quase 3 meses depois, percebo que é quase impossível recordar com exatidão as emoções daqueles momentos preciosos. Mesmo na hora, era difícil saber exatamente o que eu estava sentindo. Era uma sensação mista de sonho e de descrença em estar vivendo uma experiência única em um lugar tão especial cujo visual é arrebatador: De lá, naquele momento era possível observarmos a leste o sol nascer acima do Monte Mawenzi (o segundo maior pico do Kilimanjaro com 5149m), provavelmente o nascer de sol mais bonito que vi na vida, a lua cheia que nos acompanhou durante toda a subida ao cume ainda distante do horizonte a oeste, o que seria todo o interior de uma enorme cratera vulcânica ao norte e as famosas geleiras e neves eternas do Kibo estendendo-se por todo o lado sul, isso tudo em meio a uma vasta planície de savana.
monte mawenzi - kilimanjaro

Vista do Topo da África. Ao fundo: Monte Mawenzi. À direita: As neves eternas do Kilimanjaro

Estavam comigo os três que me fizeram companhia ao longo de toda a jornada:: minha prima Cláudia e os guias locais Nechi e Chayo, sem os quais, não seria possível chegarmos lá. Diversos caminhos levam ao cume e o que escolhemos percorrer o mais popular, a rota Machame, também chamada de rota “Whisky” pelo grau de dificuldade (a rota mais tranquila é chamada de rota “Coca-cola”), mas considerada como a rota
mais bonita.
Embora o Kilimanjaro não seja considerado uma montanha de difícil escalada, qualquer escalada que requer vários dias para se completar não deixa de ser uma experiência intensa e desafiadora. De fato, não se trata de uma escalada, pois não exige nenhuma técnica especial de alpinismo, mas é necessária um bom preparo físico e no tão esperado dia de ataque ao cume, o desafio se mostrou bastante respeitável. Neste dia, para percorrer a distância de aproximadamente 5 km que separa o acampamento base (Barafu Camp a 4673m de altitude) do cume, levamos mais de 7 horas.
Apesar dos cuidados que tomamos com a alimentação e a preparação (inclusive optando por realizar o percurso em 7 dias para melhor aclimatação ao invés dos costumeiros 6 dias dos pacotes mais populares), durante esse percurso final, pudemos experimentar alguns dos efeitos mais comuns causados pela alta altitude como dores de cabeça, enjoos e outros desarranjos. Por conta também do cansaço extenuante, tivemos não apenas que fazer paradas adicionais não previstas como também passamos a caminhar em um ritmo mais lento do que o já lento ritmo pole pole (devagar em Swahili) habitual, para que pudéssemos continuar em frente.
A parte final do ataque ao cume é particularmente difícil não só pelo evidente cansaço. Além de ficar cada vez mais íngreme, o terreno também começa a ganhar uma consistência arenosa e com isso, cada passo que dávamos para acima era acompanhado de um deslize de volta para baixo tornando a luta tanto física quanto mental. A partir desse ponto, passei a sentir a necessidade de descansar a cada 5 minutos por causa da exaustão e sede. A água que carregava comigo em garrafas plásticas já estava parcialmente congelada, o que indicava que a temperatura já estava a alguns graus abaixo de zero e o frio que até então estava suportável, agora começava a incomodar.
Porém, nada havia nos preparado para o desafio que viria a seguir: a volta.
Depois de encarar a disputa com os outros turistas pela vez para tirar as fotos junto da placa que marca o local do cume, eu estava tão exausto e com as pontas dos dedos tão geladas que não aguentava mais focalizar as paisagens deslumbrantes no visor da câmera. Ajustei então o zoom no ângulo máximo e entreguei a câmera para minha prima, que assim saciou a inquietação que vinha alimentando desde quando sua câmera quebrou ainda na metade do caminho.
Após um rápido descanso começamos a descida. O caminho de volta não é o mesmo da ida e os mais de 4000 m de altitude que conquistamos em 6 dias de caminhada são vencidos em apenas um dia pela rota mais curta e usada apenas para a descida conhecida como rota Mweka. Trata-se de um caminho extremamente íngreme e escorregadio que leva de volta ao acampamento Barafu, depois para o acampamento Mweka e daí para o início da rota.
Rota Mweka - Kilimanjaro

Vista da Rota Mweka: Descida do Kilimanjaro

O último trecho do caminho é um passeio agradável, mas o primeiro é uma verdadeira prova de resistência e velocidade, no nosso caso ainda acentuada porque como demoramos para chegar ao cume, já partimos de lá atrasados (nossa equipe de carregadores ainda teria que desmontar nossas barracas no acampamento Barafu após um breve descanso nosso para então voltar a monta-lo no acampamento Mweka onde iríamos passar a última noite).
Sentimos-nos como numa corrida nas dunas, usando a gravidade para chegar logo à linha de chegada no acampamento base. Descíamos como se estivessemos patinando, deslizando os pés, mas mesmo deslizar é uma dificuldade, pois o terreno além de pedregoso e todo irregular ainda é instável.
Se o tempo estivesse pior, eu provavelmente teria encontrado forças para descer deslizando mais rápido e acompanhar o ritmo dos demais, mas depois de sentir por várias vezes a fadiga dos músculos das pernas e as descargas de ácido láctico, comecei a sentir pena dos meus dois joelhos – ambos já submetidos à cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado posterior – e, detestando a experiência toda, continuei deslizando lentamente no limite da dor.
O sol já estava alto e o frio congelante sentido no cume deu lugar a um calor intenso que tornava ainda mais agonizante essa descida. Mais uma vez tivemos que parar para descansar. Mas dessa vez, já o pior já havia passado, estávamos agora a poucos metros do acampamento base. O mundo estava acendendo ao sol da manhã e a vista era maravilhosa. Tínhamos subido o Kilimanjaro e em breve estaríamos de volta ao conforto de casa.
Neste momento, abracei minha prima e não me lembro o que dissemos um para o outro; provavelmente algo  banal, mas me lembro vividamente da sua expressão de alívio por termos conseguido chegar lá e o profundo sentimento de amizade que aflorou enquanto percorríamos juntos o último trecho dessa aventura.
guias Kilimanjaro

Nós e o time de guias e carregadores que tornaram possível a aventura. Acima à esquerda: Cláudia. À direita: Daniel

Daniel Chu é administrador de empresas, engenheiro e aventureiro viajante. Em outubro de 2012, ele junto com sua prima Cláudia Martinelli escalaram o Kilimanjaro. Como todo alpinista aprende que a descida pode ser o ponto crucial de uma escalada, assim não foi diferente para ele nesta ocasião.
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